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Wednesday, 11 September 2019 22:00

2019, Centenário do Presidente João Goulart

2019, Centenário do Presidente João Goulart João Goulart, presidente brasileiro deposto pelo Golpe Militar de 1964 - Imagem divulgação

“Jango não caiu por ocasionais defeitos de seu governo. Foi derrubado em razão de suas altas qualidades, como responsável pelo maior esforço que se fez entre nós para passar o Brasil a limpo, criando aqui uma sociedade mais livre e mais justa”.
Darcy Ribeiro

Por Instituto João Goulart

No aniversário de 10 anos da morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1964, João Goulart divulgou um manifesto ao povo brasileiro poucos meses após o Golpe que o levou ao exílio e legou à história do Brasil 21 anos de Ditadura Militar. Neste manifesto político, resgatado em abril de 2018 por Carlos Lopes, Diretor do Hora do Povo, o presidente deposto conclama o povo a defender a Democracia e a Soberania, além de preconizar que ninguém poderá impedir a realização das reformas estruturais que o Brasil precisa, as então chamadas reformas de base. Ainda hoje, assim como no passado, o Brasil está submetido a interesses imperialistas, financistas e corporativos, sendo impedido de praticar sua própria soberania. Afinal, foi para impedir o avanço da Soberania e da Democracia com as reformas propostas por Jango que as aves de rapina, que querem sangrar nosso Brasil, articularam-se no golpe de 1964 e, ainda hoje, contribuíram para a chegada do entreguista Jair Bolsonaro ao poder.

As reformas antipopulares colocadas em marcha de forma acelerada pelo governo de Bolsonaro/Paulo Guedes aprofundam as medidas de arrocho e opressão contra o povo trabalhador, deixando completamente livres os bancos e corporações internacionais para praticarem a concentração de riqueza sem limites, prejudicando de forma implacável o desenvolvimento soberano do Brasil. Como muito bem sintetizou Carlos Lopes:

"O golpe de 1964 foi dirigido contra o país – com a participação decisiva da CIA (o adido militar norte-americano no Brasil, que articulou diretamente a derrubada do presidente Goulart, era o notório Vernon Walters) e do Departamento de Estado (Lincoln Gordon); certamente, os EUA não colocariam uma esquadra nas costas do Brasil para apoiar o golpe – a chamada Operação Brother Sam – se ele não correspondesse aos seus interesses, não aos do Brasil”.

Da mesma forma, Donald Trump e o governo norte americano dão hoje todo o suporte ao discurso extremista e neoliberal de Bolsonaro. O objetivo deste ato solene é, portanto, mostrar que é fundamental compreender o legado do Presidente João Goulart para nos organizarmos contra os sucessivos golpes que o povo brasileiro vem sofrendo nos últimos anos, sob pena de termos um país em frangalhos num futuro próximo. Republicamos abaixo o manifesto publicizado por Carlos Lopes em 2018. Deixemos João Goulart falar, postumamente, sobre a atualidade de seu legado!

JOÃO GOULART

Faz hoje dez anos que a Nação, traumatizada, assistiu ao supremo sacrifício de Getúlio Vargas. Nunca deixei de me dirigir a todos vós, neste dia, que está definitivamente incorporado à nossa história, marcando, no Brasil republicano, o instante heroico do saudoso estadista que empenhou a própria vida para conter as terríveis forças do obscurantismo e para que pudéssemos prosseguir na dura caminhada da libertação do nosso povo e da nossa Pátria. É, pois, a luta do povo pela liberdade e pela conquista das reformas estruturais profundas e cristãs da sociedade brasileira que, mais uma vez, conduz ao encontro dos vossos anseios e das vossas mais aflitas esperanças.

Deixo, assim, no exílio em que me acho, o silêncio a que me havia imposto para voltar à intimidade honrada dos vossos lares, muitos já violados, dos vossos sindicatos, oprimidos; das vossas associações, atingidas pelo ódio da reação, com uma palavra de advertência, mas, sobretudo, de fé inquebrantável no destino do nosso país. Esta palavra já não parte do Presidente da República. Não vos posso, também, dirigi-la da praça pública, onde tantas vezes nos encontramos. Dominam a Nação o arbítrio e a opressão.

A reconquista das liberdades democráticas deve constituir o ponto básico e irrenunciável da nossa luta, a luta corajosa do povo brasileiro para a emancipação definitiva do Brasil. Duas vezes preferi o sacrifício pessoal de poderes constitucionais à guerra civil e ao ensanguentamento da Nação. Duas vezes evitei a luta entre irmãos. Só Deus sabe quanto me custou a deliberação a que me impus e pude impor a milhões de patriotas.

Em 1961, tolerei as maquinações da prepotência e consenti na limitação de poderes que a Constituição me conferia, para, depois, restaurá-los democraticamente, pela livre e esmagadora deliberação da vontade popular. Nunca recorri à violência. Os tanques, os fuzis e as espadas jamais, historicamente, conseguiram substituir, por muito tempo, a força do direito e da justiça. A função que a Constituição lhes impõe é a defesa da soberania do país e de suas instituições e nunca a tutela do pensamento do povo, para suprimir e esmagar suas liberdades, como pretendem alguns chefes militares.

Este ano, depois de recusar-me à renúncia que nunca admiti, resolvi, pelo conhecimento real da situação militar, não consentir no massacre do povo. Não só porque contrariava minha formação cristã e liberal, mas porque eu sabia que o povo estava desarmado. Eu sabia que a subversão, fartamente denunciada e muito bem paga, na profusão de rádios, jornais e televisão, era o preparo da mentira do perigo comunista, que iria constituir o ponto de partida para concretização da quartelada, a fim de que, assim, pudessem esmagar as justas aspirações populares que o meu Governo defendia. Baniram, ditatorialmente, o direito de defesa; humilharam a consciência jurídica nacional; suprimiram o poder dos tribunais legítimos. Invadiram universidades, queimaram bibliotecas; não respeitaram sequer as mesmas igrejas onde antes desfilavam as contas de seus rosários. Trabalhadores, estudantes, jornalistas, profissionais liberais, artistas, homens e mulheres são presos pelo único crime da opinião pública, da palavra ou das ideias. Cassam centenas de mandatos populares. Porventura são trapos de papel os compromissos internacionais que assumimos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Carta organizatória das Nações Unidas?

Pessoalmente, tudo posso suportar, como parcela do meu destino na luta da emancipação do povo brasileiro. O que não posso é calar diante dos sofrimentos impostos a milhares de patrícios inocentes e do esmagamento das nossas mais caras tradições republicanas. Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro. É possível que haja cometido erros no meu Governo. Erros da contingência humana. Mas tudo fiz para identificar-me com os sentimentos do povo e da Nação e posso afirmar que assegurei a todos os brasileiros, inclusive a meus adversários, o exercício mais amplo das liberdades constitucionais. Deus não faltará com seu apoio à energia do povo para a reconquista de suas liberdades. Ninguém impedirá o povo de construir o desenvolvimento nacional e dirigir o seu próprio destino.

Tudo fiz por um Governo democrático e justo, no qual se processassem, pacificamente, com a colaboração dos órgãos legislativos, as transformações essenciais da sociedade brasileira; quis um Governo que incorporasse à família nacional, com acesso aos benefícios da civilização do nosso tempo, os milhões de patrícios humildes do campo e as áreas marginalizadas da população urbana; empenhei-me por um Governo que exprimisse os anseios legítimos dos trabalhadores, dos camponeses, dos estudantes, dos intelectuais, dos empresários, dos agricultores, do homem anônimo da rua para, todos juntos, travarmos a difícil luta contra a miséria, a doença, o analfabetismo, o desemprego e a fome. Sobre mim recaiu, então, todo o ódio dos interesses contrariados.

Promovi o reatamento de relações diplomáticas com as nações do mundo e assumi a responsabilidade de alargar nossos mercados, no interesse único da economia do país e do bem-estar do nosso povo. Executei uma política externa independente. Condenamos o colonialismo, sob qualquer disfarce, defendendo os princípios da não-intervenção e da autodeterminação dos povos. Nunca transigi com a dignidade do meu país e o respeito à sua soberania. Hoje, representantes estrangeiros interferem publicamente nos assuntos internos do país ou conhecidas organizações monetárias internacionais fixam, unilateralmente, condições humilhantes, em cláusulas de negociações, para ajudas ilusórias que, internamente, agravam o sofrimento do nosso povo e, externamente, aviltam os preços dos nossos principais produtos de exportação. E já se fala na execução de acordos que abrirão o caminho legal para a instalação, em nosso território, de importantes bases militares, sob o controle e o comando de outras nações.

Decretei, brasileiros, a regulamentação da lei de disciplina do capital estrangeiro. Decretei o monopólio da importação do petróleo e a encampação das refinarias particulares. Decretei a desapropriação de terras, objeto de especulação do latifúndio improdutivo. Decretei a implantação da empresa brasileira de telecomunicações. Lutei pela Eletrobrás. Decretei a limitação dos aluguéis, dos preços dos remédios, dos calçados, das matrículas escolares, dos livros didáticos. Hoje, os aumentos incontrolados do custo das utilidades indispensáveis à vida do povo atingem limites insuportáveis.

Promovi, por todos os meios, campanha intensiva de educação popular, para suprimir o analfabetismo em nossa Pátria. Estimulei os investimentos que promovessem maiores oportunidades de trabalho. Quis vencimentos dignos para todos os servidores públicos, civis e militares. Assegurei aos trabalhadores do campo o direito legal de organizarem seus sindicatos e defendi o salário real de todos os brasileiros, que deve acompanhar a elevação do custo de vida, respeitando a liberdade constitucional dos seus movimentos reivindicatórios legítimos.

Bati-me pelas reformas de base, para que o Congresso as votasse democrática e pacificamente. Muitas vezes pedi a colaboração de suas lideranças partidárias. Nada foi possível obter. Mas ninguém se engane. As reformas estruturais, que tudo empenhei por alcançar, rigorosamente dentro do processo constitucional, nenhuma força conseguirá detê-las e nada impedirá a sua consecução. Neste dia, brasileiros, longe de todos, o pensamento voltado para a memória de Getúlio Vargas, que tombou sacrificado pelas mesmas forças que hoje investem contra mim, reflito sobre as permanentes verdades que o admirável estadista denunciou em sua Carta-Testamento, e anima-se a confiança que tenho no futuro do meu país. Não posso concebê-lo presa da intolerância, da tirania, da ilegalidade, que são atitudes repudiadas pelos sentimentos generosos de nossa gente.

Sem ressentimentos na alma, sem ódios, sem qualquer ambição pessoal, conclamo todos os meus patrícios, todos os verdadeiros democratas, a família brasileira, enfim, para a tarefa de restauração da legalidade democrática, do poder civil e da dignidade das nossas instituições republicanas. Queremos um Brasil livre, onde não haja lugar para qualquer espécie de regime ditatorial, com uma ordem fundada no respeito à pessoa humana, no culto aos valores morais, espirituais e religiosos do nosso povo. Queremos um Brasil justo, progressista, capaz de assegurar confiança ao trabalho e à ação de todos os brasileiros. Queremos um Brasil fiel às origens de sua formação cristã e de sua cultura, libertado da opressão, da ignorância, da penúria, do atraso, do medo, da insegurança.

Deus guiará o povo brasileiro para os objetivos patrióticos de nossa luta.

Serviço

Ato Solene Centenário do Presidente João Goulart
16 de setembro l 19h00 l segunda-feira
Auditório Paulo Kobayashi - Av. Pedro Álvares Cabral, 201, Ibirapuera, São Paulo/SP

Antes do ato, haverá uma exibição do documentário “Jango”, às 17h00, no mesmo auditório!

Sinopse

O filme refaz a trajetória política de João Goulart, o presidente brasileiro que foi deposto por um Golpe Militar nas primeiras horas de 1º de abril de 1964.
Data de lançamento: 27 de março de 1984 (Brasil)
Direção: Silvio Tendler
Narração: José Wilker
Produção: Hélio Ferraz
Roteiro: Silvio Tendler, Maurício Dias

Realização
Deputada Leci Brandão – PCdoB
Instituto João Goulart
Assembleia Legislativa de São Paulo

Assessoria de Comunicação e Imprensa
deputadalecibrandao@gmail.com - (11) 3886-6790

Acompanhe a transmissão, ao vivo, pela página da Deputada Leci Brandão no Facebook.

Confirme presença no evento “Ato Solene Centenário do Presidente João Goulart” no Facebook!

Mais informações
Secretaria de Gabinete
(11) 3886-6790 – lecibrandao@al.sp.gov.br

 convite digital

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